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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

pra ver se você volta



às vezes penso nele como se sentisse saudade de uma parte do meu corpo que precisou ser amputada para salvar minha própria vida. como se eu tivesse perdido algo que não pudesse mais recuperar. como se nenhuma ciência, religião, livros na estante ou palavras bonitas escritas pelas minhas mãos fossem capazes de trazê-lo de volta. penso nele e um segundo depois me pergunto se um dia, talvez, sem querer, ele numa curva sentiu falta também. 

eu costumava dizer aos outros que não parecíamos em nada - éramos opostos atraídos numa perfeita alusão contrária à física. ele revelou ser tudo que, durante muito tempo, eu precisava ter. estávamos fisicamente comprometidos mas nos amávamos sem contrato, sem data de fabricação ou validade e sem planos para o futuro. aí resolvemos aproveitar os dias nos acostumando com os prazeres da conversação espontânea, com manifestações de carinho embaixo dos lençois floridos e com as ligações preocupadas via celular feitas no caminho de ida e volta da faculdade. aceitamos, sem ler as regras, uma vida de casal maduro que tomava decisões juntos. deitada em seu ombro quente eu me curei da tosse, do ronco, do tédio e da insônia. as semanas seguintes terminaram em vitamina de mamão e amor.

ele era atencioso, responsável e inteligente mas não conseguia se organizar. e eu, preocupada, acabava bordada em lembretes no mural do quarto e jogando água nas panelas de arroz duro em cima da pia. éramos alunos em todos os sentidos da palavra. nossas experiências e descobertas se misturavam ali, no colchão no chão. eu estava animadíssima e adorava aquela vida: lia e relia seus trabalhos da faculdade, opinava, corrigia, botava vírgula, tirava vírgula enquanto ele, deitado em minhas coxas, fuçava meu celular em busca de qualquer coisa que sei lá o que. depois dormíamos ali mesmo com as pernas enroscadas entre os livros e as roupas e os corpos suados. viramos amigos de infância, cúmplices de uma vida doce, ambígua, atrapalhada. vida louca. 

da noite pro dia César foi embora. do jeito mais sutil foi se afastando e ocupando cada vez menos o espaço a ele reservado. percebendo que ele estava prestes a não me querer mais, empinei o nariz e disse que ele era livre para voltar quando quisesse - se quisesse. César ergueu uma das sobrancelhas, virou de costas e desde então nunca mais o vi.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Let me take you down



"Permita que eu te deixe pra baixo. 
Vamos lá, hoje é o dia da decepção mesmo, não é? 
Eu volto amanhã pra casa e a gente vai parar de se ver. Vai ser melhor assim, sem beijos, sem lágrimas, sem quebrar nenhum prato nos azulejos da pia. Mas por falar em pratos, você devia vir jantar aqui comigo hoje. Eu abri um vinho, pedi uma pizza e aluguei alguns filmes. Você pode vir a hora que você quiser. Te comprei um presente. Não, eu não aceito que você diga não. Por favor, vamos lá, aceite. É só mais uma coisinha pra você lembrar de mim. Será que um dia você vai criar coragem de viajar comigo? Não vou poder te levar pra Dubai, você precisa entender. Por favor, pare de chorar. Ainda tenho aquela casa no Líbano, que é sua também, quer dizer, pode ser se você me disser que se atreve a deixar o Brasil pra ir viver comigo debaixo dos arranha-céus. Vai, olha pra mim, me prometa que vai ficar tudo bem. Eu te amo, mas amanhã, realmente, eu preciso voltar pra casa porque as crianças esperam por mim.
Com amor, 
Sam."
Pegou o avião e me deixou.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Devaneios


Tenho sido perseguida pelo branco filosófico dos poetas. Não durmo direito, não como direito e mal consigo escrever. Vivo agora totalmente à mercê de ressacas sem fim. Mas, antes que termine o ano, eu precisava contar uma história sobre Marina. Foi lindo encontrar aquele cartão publicado na internet mesmo que com uma falsa história. Mas eu sabia exatamente do que se tratava.

Era 25 de Janeiro e São Paulo fazia aniversário debaixo de chuva. Marina estava em casa esperando a água do café ferver. Distraída, deixou aquele copo de água cair sobre seus dedos. A casa, na verdade, era pequena demais: sala no quarto, cozinha na sala e uma varandinha com ventos bons vindos de lá pra cá. Nos minutos seguintes, Marina esmagou pedras de gelo contra a mão para passar a dor.

Do outro lado da cidade estava Raul: Para ele seria mais um dia de trabalho, e, para fugir da rotina, conectou-se à internet em seu celular naquele instante. Sem saber, Marina conectou-se usando o "pc lata veia", como ela chamava, enquanto o gelo fazia efeito. Talvez, se o café não tivesse passado do ponto, ou se não houvesse gelo no refrigerador, ou até mesmo se Marina não estivesse distraída ouvindo música, ela teria se conectado 10 minutos antes, esvaziado a caixa de emails e desligado o computador. Mas, não foi assim que as coisas aconteceram. Ao mesmo tempo, Marina e Raul uniam seus destinos, sem nem saber como.

Das horas conversando sobre panquecas, florestas com plantas carnívoras e jacarés famintos até o ápice da história romântica não demorou muito. Se acostumaram a ouvir a voz um do outro, cantavam músicas de ninar, pediam conselhos, decidiam juntos o que iam cozinhar ou vestir. Não comiam, não bebiam nem dormiam. A única coisa que provava que eles existiam era o coração, que por vezes pulsava nos corpos fracos debruçados em suas camas, separados. Sem nunca um ter visto o outro, faziam planos o tempo inteiro e preenchiam o calendário, ocupando todas as datas com aventuras avassaladoras que talvez nunca chegariam a acontecer.

Agora juntos e de mãos dadas (ela, sempre à direita de Raul) pela Avenida Paulista tudo podia acontecer: nada mais importava. Aquela era a hora certa pro mundo acabar, de telhas voadoras se arremessarem contra as pessoas, dos jacarés famintos do pântano atacarem a cidade. Marina queria gritar alto sobre seu novo amor, queria beijos de cinemas, queria escrever sobre ele, fotografá-lo de todos os ângulos possíveis, para que daqui a 50 anos ela pudesse comparar e perceber que em uma coisa nada iria mudar: durante 50 anos ele acordaria todos os dias e a enxergaria como a primeira vez em que a viu.

Entretanto, uma coisa ruim aconteceu, mas eu não queria comentar aqui. Acreditem, doi até em mim ser a mensageira das causas tristes e contar sobre o final. Só posso induzi-los a imaginar o nosso segredo mais profundo sendo descoberto, aquilo que ficou guardado imerso em nossos pensamentos, aquele tipo de coisa que, dentro da sua alma, você tenta esconder da sua própria alma.

E o que faremos agora?”, disse Raul.

Vamos esperar. Cada um vive a sua vida agora e se nos encontrarmos outra vez por acaso, eu quero olhar nos seus olhos e sentir que ainda te amo

A gente pode tentar melhorar...”, dizia Raul ao ser interrompido por Marina. “Não. Eu acredito no nosso destino. Encontraremos-nos, seja onde for, quando for. E então, continuaremos de onde paramos. E paramos aqui.

Por meses não se teve notícias de Marina. Desvairou pelo mundo em busca do amor próprio. Com os olhos penetrantes, profundos, negros e fieis acima de um espontâneo quase-sorriso daqueles que as modelos ficam horas ensaiando na frente do espelho, Marina fixava seus sentidos (apuradíssimos) no ar. Era a mesma pele dourada e o mesmo ar de sedução: Marina estava no mundo pronta para matar. Unhas? Vermelhas. Longos cabelos lisos. As fotos no sofá não me deixam mentir. Os demais viam que era a mesma foto e o mesmo sofá vermelho de sempre. Mas só eu conseguia enxergar que apenas a foto e sofá se repetiam: Marina já não era mais a mesma.

Os olhos de apetite ainda olhavam fixamente para as desgraças da vida, mas agora viam o nada. Cabelos? Cortados no ombro. As unhas estavam menores. Marina passou noites em claro sem conseguir escrever nada. Até escrevia, mas tudo estava meio desorganizado, e nada virava texto. Magra, de ombros a mostra, brigando de lutinha com a câmera fotográfica e brava feito bicho, chegava em casa de bico grande e arrancava a roupa para jogar no chão. Deitava na cama com as pernas para o ar e passava a madrugada inteira desejando todas as coisas que não se pode ter. De porre, enviava emails com declarações amorosas e no bar fazia ponto. Ligava para os ex namorados e desvairava a verdade nua e crua em posts no facebook. Acordava vira-lata, meio tonta, meio chata, meio deprê. Totalmente à mercê de ressacas sem fim.

De Raul não se sabe muito. Trocou de emprego, fez novos amigos e de vez enquanto era visto dando umas voltas pela Paulista em quintas feiras culturais. Os olhos verdes, ainda estavam verdes na última vez que o vi (por trás do vidro do ônibus naquele dia chuvoso). Viajou algumas vezes, trocou de celular e foi a alguns shows. Bebia, bebia e bebia. Totalmente à mercê de ressacas sem fim.

Forte, decidida, cada vez mais ousada e certeira, Marina escreveu um cartão para Raul, e todos pensavam que ela ia descer do salto e quebrar o pau da barraca no menino. Mas foi surpreendente o que estava escrito no cartão-sem-remetente que Raul recebeu naquele dia das mãos do carteiro. Era uma caixa meio vazia, com grandes laços vermelhos. Dentro havia um pedaço de papel recortado e retalhado com frases impressas.

Ao ler o que estava escrito, Raul sentou no sofá e fechou os olhos. Ele sabia exatamente do que se tratava. Marina não era do tipo que escrevia "Te Amo" ou "Volta pra mim". Era gente grande. Tomava decisões de gente grande e se portava como tal. Raul então correu pro quarto, foi ficar bonito, vestir aquela camisa branca de mangas longas que Marina sempre ameaçou arrancar e jogou o bilhete em cima da cama. Nele estava escrito mais ou menos assim:


“Nós dois estaremos no mesmo lugar hoje a meia noite. Feliz ano novo. E, por favor, me encontre...”


E hoje, quando o ponteiro marcar meia noite, olhem pro céu. Quando os fogos começarem a explodir, vocês saberão o que está acontecendo. Em algum lugar da cidade – não se sabe onde – uma flor encontrará seu verdadeiro amor.

E a vida de alguém vai sorrir outra vez.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

o pedido na estrela


Essa foto talvez seja o ápice da minha vida.



Ela foi feita por mim eu um dos dias mais felizes e que vou me lembrar enquanto eu existir.

Era 20 de dezembro de 2009. Havia, naquele dia, uma exposição no Parque Ibirapuera sobre o livro "O Pequeno Príncipe", de Antoine de Saint-Exupéry. Eu, recém chegada a São Paulo, ainda não conhecia ninguém. Encantada com a história do principezinho, fui conferir a mostra que se chamava "O Pequeno Príncipe na Oca".

Fui sozinha mesmo, desbravando ônibus, pessoas, lugares. Fui sem saber ir, sem pensar em voltar, eu simplesmente quis ir. Não busquei mapas, não levei relógios, não levei ninguém (e eu nunca me senti tão bem acompanhada).

É triste não ter nenhum registro de que eu estive ali: não apareci nas fotos já que não havia ninguém, além de mim, para apertar o botão. Mas tenho lembranças incríveis que são completamente indizíveis com o simples vocabulário do qual faço uso.

"Desejo uma viagem". Um rapazinho bonito, meio sem jeito, com seus 6, 7 anos escreveu seu pedido na estrela bem ali na minha frente. O fato é que O Pequeno Príncipe inspira muita gente. Inspira até aquele garotinho que sem pressa alguma segurava uma estrela e uma caneta, e que, debruçado ao lado da flor, pensava no que realmente desejava. Sua estrela com o pedido "desejo uma viagem" foi exposta junto aos outros milhares de desejos cravados em estrelas naquele ano.

Foi lindo ver os desejos expostos e compartilhar daquele sonho. Pessoas do mundo inteiro escreveram seus pedidos nas estrelas e pude ver que (ainda) existem pessoas que somente têm a agradecer. Muitos nem sabiam a quem estavam agradecendo, mas o faziam pelo simples sentimento de gratidão por viver este momento tão nostálgico e maravilhoso.

Pois bem, ali estava eu, nos campos de trigo, observando de longe o garotinho que estava completamente mergulhado em seus próprios pensamentos a fim de descobrir o que queria escrever na estrela como se aquela tivesse de ser a decisão mas concisa da sua vida. Atrás de mim, um telão transmitia o filme do Pequeno Príncipe com legendas (para não se misturar ao som ambiente). Quando, por um segundo, voltei minha atenção para o telão, estava escrito "As estrelas são todas iluminadas... Será que elas brilham para que cada um possa encontrar a sua?”.

Eu não sabia o que responder. Minha estrela amarelada ainda estava brilhando em minhas mãos, limpinha, sem rasuras, sem nada. Nem desejos nem agradecimentos - nada. Estava ali, paradinha feito eu, apenas vendo acontecer.

Eu te pergunto para que me respondas sem pressa, assim como o menino. Se você tivesse que anotar algo na estrela, o que você escreveria?

segunda-feira, 11 de julho de 2011

sobre suas canções de amor


7h00 da manhã e eu estava dentro de um ônibus lotado que ia em direção ao meu trabalho. No mp3, suas músicas estão salvas em ordem alfabética [sendo a primeira aquela que ele nem sequer compôs pra mim]. Sei que qualquer coisa que eu falar agora ou frase pronta que eu escrever vai parecer verso de samba, e eu nem quero, sabe? Nem quero começar a contar meu dia escrevendo “hoje” [e até exclui da primeira linha, deixando meu início sem sentido] porque além de te revelar e estragar o mistério do meu texto, estaria fazendo alusão a canções que não quero mais ouvir.

Então, chega. Estava eu com meus fones brancos [da cor da minha alma] ouvindo aquelas músicas. O que antes parecia ser doce, hoje não fez meu coração bater mais forte. Sim, eu amo canções que falam de amor [mesmo que seja o amor alheio que não me inclui], mas hoje nem estalou nada em mim, nadinha. Hoje eu não cantei errado com você e nem sorri no final do meu erro. Daquela sua voz de veludo sobrou apenas a respiração ofegante que parecia sufocá-lo ao começo de cada verso. Da melodia apaixonante dedilhada num violão bonito, sobrou apenas o barulho das palhetas tangenciando as cordas da maneira mais agressiva possível.

Não ouvi canções de amor. Não hoje. Olha que trocadilho divino: “hoje não”. Ouço somente a asfixia de uma voz que parece nem ser mais a mesma, gritando palavras que minha mente insiste em substituir por "bla, bla, bla" e uma palheta rangente que só serve parar triturar as partículas de sentimento que eu um dia ousei te oferecer.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Tudo o que a água não levou




Encharcou-se na cama. Naquele momento deixou de ser uma mulher chorando e passou a ser um tsunami feito de lágrimas. Odiava aquela cidade e a falta do que fazer. Odiava os relacionamentos que não deram certo, as tardes de chuva e o telefone que não tocava mais. Exatamente nessa sequência. Odiava os japoneses nas calçadas, a comida ensopada e agora odiava o silêncio. Queria ser levada. O relógio marcava 02h46 da manhã quando um tremor balançou as casas. Nas ruas, passarinhos que cantavam, calaram-se; namorados de mãos dadas que caminhavam juntos, largaram-se; cachorros que latiam, esconderam-se embaixo da mesa. Beatriz abriu os olhos e negou-se a levantar – estava decidida a fazer isso somente quando o Japão voltasse a valer a pena. Observou o relógio e voltou a dormir. Os vasos de flores (sem flores) que estavam sobre a mesa vibravam na mesma sintonia dos pratos e copos apoiados na prateleira. Um vento barulhento espancava as portas, quebrava vidros e acordava os vizinhos. A passos leves, Beatriz desceu as escadas e acendeu todas as luzes do corredor. Não demorou muito até uma explosão de água invadir a sala de estar, arrastando-se pelo resto da casa. A água levou tudo: tanto as pessoas quanto suas coisas. Levou os japoneses nas calçadas, ensopou a comida, e destruiu o silêncio. No lugar deste, ouviam-se gritos apavorados. Beatriz subiu até o telhado e avistou a cidade de cima. Era como se pudesse compartilhar com o resto das casas a dor que sentia como uma conexão wireless que permuta entre as residências sem pedir permissão. Olhava com o desdém de quem diz “era assim mesmo que eu queria”. Não gritou, não chorou, nem sequer pensou em como poderia se salvar. Não lembrou de lembrar de nada. Insensível e impermeável, Beatriz deixou-se levar pela correnteza das águas e manteve os olhos bem abertos para ver seu próprio fim. Fez apenas o que fazia de melhor: respirava e pensava o tempo todo. Lutava para morrer, e não conseguia obter sucesso algum. Avistava corpos conhecidos boiando sobre a água. A professora, o porteiro, a vizinha e o ex-namorado. Todos se tornaram perfeitamente invejáveis naquele instante em que ainda se contorcia inteira na intenção de juntar-se aos corpos.




Shhhhh” Alguma coisa tremia debaixo do travesseiro. “Shhhhhh”. Beatriz desligou o celular que vibrava. Olhou para a janela e sentiu seu rosto arder. Era uma manhã de sol radiante e fazia 42º no Rio de Janeiro. Richard estava ao seu lado, e, ah meu Deus, como ele ficava divino naquela bermuda vermelha... Na mesinha havia um vaso com flores igualmente vermelhas e elas escondiam um bilhete que, escrito com nanquim dizia “Feliz aniversário, morena, te amo”.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Cartas ao meu Grande Príncipe, 1997

PS.: Eu tinha 5 anos!
clique na foto para ampliar

sábado, 6 de novembro de 2010

Casa da Liz - Aqui reside o amor do Fernando

Eliza, 32 anos, jornalista. Mudou 5 vezes de casa, 4 de cidade e 2 de marido. Tem um gato chamado Luiz e trabalha em uma assessoria de imprensa. Tem chulé, alergia à lactose e às vezes, sofre de amor platônico. Usa o twitter para que o mundo possa ouvir, quase que num grito, os seus pensamentos.

Fernando, 29 anos, arquiteto. Mora com os pais. Namorou uma bailarina que fugiu com o circo três dias antes do relacionamento acabar. Fernando demorou meses para pedi-la em casamento. Recebeu a resposta 3 dias depois, por email. Não tem blog, twitter e odeia o orkut. Depois do ocorrido com a bailarina, ele prometeu nunca mais usar a internet, a não ser que uma força maior baixasse sobre ele. Fernando tem dentes lindos. É um homem sério demais para falar que ama alguém.

(22:36) Fernando: mesmo que eu não queira te ver, de um jeito ou de outro, vamos acabar nos encontrando...
(22:37) Liz: espero que sim... de um jeito E de outro
(22:37) Fernando: que jeito é esse?
(22:38) Liz: o nosso...
(22:39) Fernando: sugere algo?
(22:40) Liz: quero tomar café da manhã durante a madrugada
(22:42) Fernando: assim vc pula várias etapas...
(22:42) Liz: então ganharíamos tempo, já que estamos 3 etapas atrasados...
(22:44) Fernando: e quais são?

Te encontrar pela manhã é a primeira. Eu ficaria tímida, sentaria numa ponta do metrô e você na outra, e ficaríamos em silêncio. Você me olharia, e eu, timidamente iria sorrir para você e falaria que estava atrasada para o trabalho. Você diria "vamos combinar algo" e eu responderia "sim, claro, te ligo qualquer dia desses..." disfarçando minha piração interior. Logo, passaria o dia inteiro pensando em nós.

A segunda etapa seria te ligar. Aliás, você me ligaria para marcar um passeio na Av. Paulista. Se eu aceitasse (não só aceitaria como chegaria 30 minutos antes do combinado), você me mostraria os melhores bares e baladas, falaria sobre arquitetura moderna paulista enquanto eu bebia cerveja alemã. E eu, mesmo conhecendo os prédios de cor, demonstraria todo interesse do mundo, afinal, não haveria forma mais interessante de ser apresentada ao mundo.

Quando estivéssemos voltando pra casa (sempre no último vagão do metrô), você perguntaria se eu queria fazer algo no final de semana seguinte, e nós iríamos a um bar na Vila Madalena na sexta. Eu, obviamente, faltaria na aula de filosofia. Afinal, a vantagem em te amar é que você me diz tudo o que um filósofo não seria capaz de pensar. Iríamos esquecer a hora de voltar pra casa e assim, perderíamos o último metrô. Felizmente, teríamos que ficar na rua até 5h da manhã para usar o metrô. Como o relógio já marcaria 3h, iríamos na padaria tomar café da manhã... sem perceber, estaríamos indo para a quarta fase. Por mim, depois disso, eu poderia até morrer. Nada mais iria importar. Estaríamos amando novamente. Fernando, para chegarmos à quinta fase, é preciso que você me sinta em você. Que eu esteja dentro, mesmo sendo totalmente um ser de fora.

Como foi dito, tudo aconteceu. Fernando e Liz chegaram na quarta fase dia 09 de Setembro. Naquele ano, aviões de ataque terrorista chocaram-se com as Torres Gêmeas do World Trade Centerem Nova York no dia 11 de Setembro. Nesse dia, Fernando estava em uma reunião que, segundo ele, decidiria seu futuro. Fernando é um dos corpos que não foram encontrados, e que possivelmente, se desfez diante os escombros que sobraram das torres. De Fernando não sobraram ossos, roupas, fios de cabelos. Nenhum dos dentes perfeitos, nenhum dedo da mão maravilhosa que desenhava escadas como quem cria vidas. Dele, só ficou o apartamento, que só não ficou vazio porque Liz comprou o imóvel, e ela sabe bem: Fernando ainda reside ali. Em espírito, em forma de vento, no cheiro do café. Em algumas noites Liz acorda assustada e ainda ouve a voz de Fernando. Liz chora todas as noites e ora, acredita que ele permanece ali.

Liz procurou rastros de Fernando pela internet. Ela encontrou.



Fernando morreu duas vezes: na vida virtual, após a fuga da bailarina; e na vida real. Porém, de um lugar Fernando nunca teve pressa em abrir as portas e partir: do coração de Liz.


sexta-feira, 23 de julho de 2010

she loves you ya ya


Era verão. Fazia calor. Fui acordada às 9 da manhã pelos raios de sol que ultrapassavam a janela fechada do ônibus que me levava até o trabalho. Precisava de um motivo digníssimo que me fizesse desencostar a cabeça da janela e levantar da cadeira. Estava também atrasada. Uma hora de atraso, mas tudo bem. Em passos bêbados, caminhei até a porta segurando nas cadeiras e tropeçando nos pés das pessoas que não conseguiram sentar. E foi ao me recuperar de um estrondoso bocejo que ganhei o dia: ele estava parado em frente a porta e não cansava de contar as horas pelo relógio de pulso. Agora, do lado de fora do ônibus não ficava uma esquina sem me olhar. Andávamos em perfeita sintonia, pé esquerdo, pé direito. Ele sorriu. Talvez nem tenha sido pra mim, mas ele sorriu do meu lado. Por três quarteirões pude vê-lo quase flutuar. Cada passo, cada sorriso, cada passada de mão no cabelo. Três quarteirões depois eu só tinha uma direção a seguir: a dele. Colocou uma mão no bolso e puxou um cigarro. Dobrei na próxima direita e ele seguiu direto. Cheguei atrasada. Contei para meus amigos o que aconteceu e a Marisa me falou: "você tá querendo dizer que o garoto dos seus sonhos é um carinha que você viu no ônibus, você não sabe o nome, que nem te deu bom dia e provavelmente nunca mais te verá?". Talvez eu devesse mesmo cuidar de alguns detalhes antes de procurar um namorado: comprar camisas novas, um perfume famoso, pentear o cabelo, talvez... Mas fui bem clara na cozinha do trabalho: "o homem que gostar de mim vai me amar pelo caráter, pela minha coragem, meus planos, minhas ideias, meus textos... Terá orgulho de mim por eu ter simplesmente ter nascido. Serei a mais linda, mesmo tossindo. Vai ser assim, sim. E se não for não serve." Mas a Marisa insistiu: "então se ele te viu dormindo no ônibus, talvez babando, e mesmo assim não parou de te olhar; se é ele o cara que Deus preparou pra você, porque não estão juntos?" E eu respondi: "porque ele ainda não está pronto pra mim. Ele é simpático, bonito e gostou de mim, mas ele fuma. O seu cheiro de cigarro não combina com o meu de lavanda." Então deixei pra lá.
Já é inverno. Doze graus. Eu estava voltando pra casa e entrei no primeiro ônibus que passou em meu ponto por não aguentar mais o frio. Na última fila de cadeiras, apenas um lugar vazio, ao lado da janela. Sentei e dormi. Algum tempo depois eu ainda não estava desligada totalmente do ambiente e pude ouvir a conversa do rapaz que sentara a minha frente. Não consegui entender, apenas ouvia. Chegou a hora de descer, e, já na porta, olhei pra cadeira onde eu estive sentada durante a viagem. Quando estava prestes a tocar o sinal de parada, alguém o fez. Na cadeira em frente, estava ele, que ficara de pé. Olhou em meus olhos fixamente, sendo interrompido de súbito por um senhor que tocou o seu ombro. Virei de costas e desci do ônibus. Tomei meu caminho. O senhor lhe perguntara: "tem fogo?". Me olhando partir, ele, o homem da minha vida que eu estava destinada a nunca mais encontrar dizia: "não não, eu parei de fumar".

domingo, 27 de junho de 2010

"não era bem isso que eu queria"

Talvez eu devesse ter resolvido mais alguns detalhes práticos antes de simplesmente ter me mudado para cá, mas me deixei levar um pouco pelo calor do momento e pela idéia romântica de chegar a uma cidade grande sem nada além de uma mala. Eu era a heroína da minha própria historinha. Eu não ia me contentar com “não era bem isso que eu queria”. E eu iria provar para minha mãe que eu era capaz: ela só tem uma filha, então é meu dever deixá-la orgulhosa. Claro que isso significa que eu não tenho exatamente um emprego neste momento; eu tenho um serviço, só que não é bem o que eu esperava. Mas não vem a ser assim tão ruim.

Largo os livros: a música está alta demais e não tem como eu me concentrar. Talvez eu devesse cozinhar alguma coisa. Eu podia tentar preparar alguma receita nova ótima ou algo assim. Sempre digo que não tenho tempo para cozinhar da maneira adequada, e esta é a minha chance.
Tendo dito isso, minha cozinha não é exatamente o local mais fácil onde se cozinhar. Eu digo cozinha, mas o que quero dizer na verdade é uma pequena área emendada na sala que tem uma pia, uma geladeira e um fogão. Daí tem uma mesinha entre a “área” da cozinha e a “área” da sala e... bom, é só isso, para falar a verdade. Não tem espaço para armário: precisei guardar as caixas de cereal nas estantes de livro porque não há nenhum outro lugar para colocar.
Esse é o problema. A gente vê o anúncio de um apartamento na vitrine de uma imobiliária “Apartamento moderno em Ladbroke Grove, um quarto, perfeito para receber os amigos”, e você fica achando que vai deparar com um lugar igual à casa da Monica de Friends. Daí, você chega lá e vê que o “perfeito para receber os amigos” se traduz por “cozinha fica na sala, então é só dar um passo”.

Acho que eu podia fazer mais por este lugar: está um pouco vazio, eu sei. Mas o negócio é que eu realmente não tenho nada para “fazer mais”. Eu mal consegui trazer minhas roupas, imagine só livros e quadros. E, de qualquer maneira, eu não quis trazer toda a minha bagagem (nem física nem metafórica). Mudar de casa é começar vida nova, e trazer lembranças da vida antiga só serviria para abalar o objetivo. Minhas coisas velhas não passam disto: velhas. Fazem parte da minha velha vida.
Tomar decisões importantes assim é demais para mim neste momento. Mesmo assim, com certeza dá para fazer alguma coisa com o que eu já tenho.

Olho ao meu redor em busca de inspiração. Há dois livros no braço do sofá. Meu som, que já viu dias melhores, está no chão, rodeado por CDs e fitas. Um espelho torto que o senhorio deixou pendurado e desolado na parede, reflete a parede vazia a sua frente com a tinta rachada e os buracos que sugerem o lugar em que havia quadros pendurados. E daí tem uma pilha de cartas enchendo o consolo da lareira, sendo que nenhuma é para mim.

Bom, como eu disse, não estou pronta para me contentar com “não é exatamente o que eu queria”.






*trechos extraídos do livro Mentirinhas Inocentes, de Gemma Townley.

sábado, 19 de junho de 2010

Diego, Diálogos, Diélogos


Em um pedaço de um guardanapo de papel sujo de catupiry eu escrevi:

"Por um momento você estava ali, depois não estava mais. Você entra, sai, corre e quase nunca volta. Sempre indo e vindo. Não posso deixar de te sentir. Você lidera, você se supera a cada minuto. Você é. Eu estou. Você me percebe vinte minutos depois e então me dá boa noite. Beija minha bochecha. Seu cheiro é bom.

Coma quantas girelas o salário te permitir, decida, argumente, diagrame quantas páginas quiser. Aprenda outras línguas, conheça outras pessoas. Ame e sofra quantas vezes for possível. Deixe seu cabelo sempre assim. Porque eu estou enquanto você é. Renove-se.

Hoje eu te olho, te questiono, e como trilha sonora eu ouço aquela música que diz '
sei que o amor é cego e meus conselhos são sem efeito...' mas se quiser me ouvir um dia, entenda: eu vou sempre estar aqui por você. Porque eu estou. Você é."

E por ser, ele me respondeu assim:

"Às vezes tem coisas que nos deixam menos importantes frente as coisas ruins que nos acontecem sempre e sempre. Uma caneta, um pensamento e um pedaço de guardanapos é o tesouro que mais reverencio no dia de hoje. Obrigado Alexia, divina correspondente dos infelizes. Sempre com o sorriso mais tênue de simplicidade e um leve tom tímido. Meu coração sorri (mesmo sem tal majestade de ser admirado) para você no dia de hoje.

As pessoas
podem mudar, crescer, fugir de seus costumes, mas estou aqui e, sim, sou.
Mas ao contrário do que pensa, você é, e mais que isso, você me é."
Diego Lourenço


Obrigada Diego.
Por ser.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

#bombanasj


Primeiro um alarme de incêndio. O professor Agnaldo parou sua aula de Sociologia para acalmar a Mariana, que, aflita, olhava para todos os lados preocupada com o que estava acontecendo do lado de fora da sala de aula.
"Deve ser algum grupo de engenharia..." - disse o professor.
"Mas tem tumulto.. professor, tem um bombeiro na porta da sala, ai meu Deus!" - dizia Mariana assustada. Em menos de um minuto entra o bombeiro e avisa: "Devagar, todo mundo tem que deixar o prédio, sem tumulto".
Alguns preocupados, outros nem tanto. Pelos corredores só se ouvia "É treinamento da brigada de incêncio, lógico que não está acontecendo nada, relaxa". As rampas, lotadas de seres humanos que falavam sempre sobre o mesmo assunto. Eu, nervosa que sou, perguntava a qualquer um que olhava em meus olhos: "O que aconteceu?" e juntando todas as respostas que obtive, a conclusão seria que um suicida enviou um email para a diretora avisando que iria bombardear a faculdade com ataques de helicópteros. Sim, temos alunos altamente capacitados no quesito criatividade. Após horas de apuração, a Camila Melim conseguiu conversar com um PM e conforme publicação no Rock & Soda "De acordo com a Força Tática, a bomba era caseira, constituída com cano PVC, fios e massinha - O objeto ia destruir no máximo o corrimão".
Sim, era uma bomba! Uma bombinha, vai. Segundo o Estadão Online, "Um objeto com um relógio acoplado foi encontrado por um vigilante no 4º andar do prédio. O artefato seria um simulacro de explosivo". Alguns instantes depois do acontecimento, o fato estava na internet. Após a notícia vieram as satirizações, como postagens no twitter com relatos do tipo "Minha faculdade tem atentado, e a sua?" e "Sua Universidade tem ameaça de bomba feita de massinha? A minha tem". Sem contar as músicas que cairam como luvas para a ocasião, como por exemplo LA BOMBA, e até um projeto de confecção de camisetas em massa com a frase "Atentado na USJT: Eu sobrevivi". Os tweets não param de chegar. São em média 25 por minuto. Como disse a Camila Farias em um dos comentários, "Hiroshima, Irã, Iraque agradecem e mandam um salve! Bomba agora só na São Judas".

sábado, 29 de maio de 2010

meus quase dezenove


Agora sim.

A partir de hoje deixarei de ouvir algumas frases. Poderei, enfim, usar a minha tão ensaiada assinatura. Criarei uma conta em cada banco, inclusive nos internacionais. Safra, Daycoval e Barclays que me aguardem. Emprestarei meu RG ORIGINAL para todas as garotas menores de idades que quiserem sair de balada aos sábados. E poderei até ser presa por isso. Agora sim.

Achei que tinha duas rugas que estavam prestes a surgir, afinal, agora tenho quase dezenove anos. E quase dezenove é praticamente vinte. Não é? Olhei no espelho e os únicos vincos eram os da minha testa, e eu sabia que, se conseguisse relaxar, eles desapareceriam. Crescer por dentro é lindo: o corpo parece ser tão pequenininho...

Meu amigo Raul deu risadas quando eu, feliz, comprei um rodo para o meu banheiro. Ele disse: "Quer dizer que você está se achando mais velha só porque comprou um rodo?"
Mas não era um rodo qualquer, estávamos falando do meu primeiro rodo. Aquele que após total quitação, demarcava um novo período, registrava um renascimento, criava uma nova eu. Pré-Aléxia e Pós-Aléxia. Eu. Agora sim.

E eu não entendo nada de rodos, mas sobre mudanças... Ah, eu sou profissional.

sábado, 8 de maio de 2010

A mais bela paisagem do mundo

Era mais uma noite normal. Eu, normal que sou, entrei na biblioteca da faculdade sem nenhuma busca especial. Procurava algum livro sobre jornalismo, ou sobre arquitetura, ou sobre literatura inglesa, ou talvez até sobre psicologia. Esta era eu, vagando pelas prateleiras iluminadas da biblioteca por ter sido liberada da aula de filosofia mais cedo. Por não encontrar nada conhecido, fui até a prateleira de literatura infantil, e tive, pela 4ª vez (na semana), o prazer de folhear o (já decorado) livro O Pequeno Principe, de Antonie de Saint Exupéry. Em um acervo composto de livros altamente importantes e cientificamente interessantes, ninguém é hedonista o suficiente para dirigir-se até o setor de literatura infantil e pegar os mais empoeirados (e escondidos em caixinhas azuis) livros infantis. Sentei no chão. Lendo, meus olhos acompanhavam as letras impressas, porém meu cérebro narrava palavras já conhecidas, um texto que eu já li outras centenas de vezes. Na última parte, onde mostra um desenho do deserto e diz "Esta é, para mim, a mais bela paisagem do mundo, e também a mais triste. Foi aqui que o principezinho fez a sua aparição na Terra e depois desapareceu", eu encontrei um recibo de empréstimo de material. Isso significa que, assim como em mim, em alguma daquelas pessoas da faculdade habita uma criança. E essa criança também retirou outros dois livros sobre Arte Nouveau e AutoCad. Era um rapaz de nome lindo, cujo RA nunca mais esquecerei: 200904649.
Alguns dias depois, voltei a biblioteca para checar alguns emails e só havia um computador vago. Era o último da primeira fila. Tentei fazer meu login usando o meu RA de número 201004649. Não consegui pois havia um cadastro aberto. Quando tentei fazer logoff da conta aberta, uma surpresa: A última pessoa que usou o computador usava o RA número 200904649. Sim, era ele. O meu pequeno príncipe, veterano, supostamente inteligente, arquiteto e atraente estava na biblioteca no mesmo horário que eu. Eu precisava encontrá-lo. Não sei o que faria quando encontrasse, mas eu teria que encontrá-lo. Saí tropeçando em direção às prateleiras com livros de arquitetura, mas não encontrei ninguém. Ao lado, em psicologia, duas garotas negociando quem levaria o último exemplar de "Humano, demasiado humano". Alguns minutos depois, totalmente sem sucesso, encerrei a minha busca por aquele que seria o mais incrível dos rapazes. Aquele que tem o gosto igual o meu, o hedonismo igual o meu, o RA igual o meu. Aquele que, assim como eu, mesmo com dois livros chatos para ler, escolheu O Pequeno Príncipe para divertí-lo. Aquele que esquece os recibos de empréstimo dentro dos livros. Ele era perfeito. Tinha que ser perfeito. E a essa altura, seu rosto não me importava mais. Hoje, sempre que passo pelos computadores da biblioteca, logo me vem à mente o trechinho final do livro, e olho para a última mesa, sempre vazia, na esperança de encontrar alguém que poderia ser ele, esperando por mim.


"Esta é, para mim, a mais bela paisagem do mundo, e também a mais triste. Foi aqui que o principezinho fez a sua aparição na Terra e depois desapareceu"

domingo, 2 de maio de 2010

O destino da menina que foi a cara de uma guerra

Ela se transformou no símbolo da Guerra do Vietnã. A foto da menina queimada, fugindo nua após seu vilarejo ser devastado pelos americanos, correu o mundo.
Em 1972, ela tinha 9 anos. Hoje, aos 45, é casada e mora no Canadá com seus dois filhos. Sua foto, tirada por Huynh Cong Ut, fotógrafo da agência Associated Press, ganhou o Prêmio Pulitzer do ano seguinte e se transformou no símbolo do conflito.
Enquanto a foto corria o mundo, sua vida mudava de forma radical. Após o ataque, ela foi levada para um hospital em Saigon pelo próprio fotógrafo. "Só me lembro que ele jogava água no meu corpo."
Um ano após o ataque, ela voltou ao vilarejo. "Alguns dias depois, meu pai me trouxe um jornal e me mostrou a foto. Fiquei horrorizada e chorei sem parar por vários dias. Foi naquele momento que comecei a entender o que eu tinha vivido. Além disso, estava muito envergonhada. Não suportava me ver nua em uma foto que o mundo inteiro viu."
Phan relata que estava vestida com uma roupa leve no momento do ataque, a qual que foi queimada em alguns segundos. "Se estivesse usando uma roupa mais pesada, que levasse mais tempo para queimar, estaria morta. Muitos morreram exatamente desta forma."
Phan tentou viver no anonimato, mas foi descoberta nos anos 90. "Um dia, estava andando na rua em Toronto e alguém me disse que sabia quem eu era. Foi aí que eu entendi que não poderia mudar o passado, mas que poderia alterar o significado do que ocorreu."
A vietnamita passou a atuar como ativista de direitos humanos, tornou-se embaixadora da Unesco e criou uma fundação. Até hoje, Phan se lembra com ironia dos comentários do então presidente americano Richard Nixon, que duvidava da autenticidade da foto.

(Publicado no site do Jornal O Estado de S. Paulo em 30 de Abril de 2010)

Era um garoto que como eu, amava os Beatles


Há 35 anos encerrava-se a Guerra do Vietnã no sudeste asiático: Uma das mais sangrentas do século XX. O conflito envolveu de um lado, a República do Vietnã (Vietnã do Sul), um país capitalista sob regime ditatorial e apoiada pelos EUA; e do outro, o Vietnã (Vietnã do Norte), apoiado pela Frente Nacional para a Libertação (FNL), comandados por Ho Chi Minh, de orientação comunista. As batalhas tiveram início em 1959 e terminaram em 30 de abril de 1975. Ideologia e política, foram os principais motivos do conflito, em um momento histórico em que o mundo era dividido em dois blocos: comunista e capitalista. No ano de 1964, os EUA entraram na guerra de fato. Em território vietnamita, os norte-americanos perderam milhares de soldados, em um conflito que consumiu milhões vidas. A guerra terminou com a rendição das tropas sul-vietnamitas e a retirada dos militares norte-americanos. Entre vencedores e vencidos, ficaram as imagens que serviram, e servem, para alertar o mundo sobre os horrores da guerra.

(Publicado no site do Jornal O Estado de S. Paulo em 30 de Abril de 2010)

sábado, 24 de abril de 2010

Fonte de minha inspiração fotográfica: Diane Arbus.

Na década de 50 enquanto Juscelino Kubitschek - até então presidente do Brasil - batia no peito divulgando seu plano desenvolvimentista que faria o país avançar "50 anos em 5", em Nova York surgia uma mulher com uma máquina Rolleiflex com dupla objetiva fotografando o que ninguém pedia para ver. A mulher de quem falo é Diane Arbus, e a Rolleiflex, sua arma de excitação.
Diane ingressou no mundo da fotografia como assistente de seu marido, Allan Arbus. Juntos, fotografaram para grandes revistas, entre elas New York Times Magazine, Harper`s Bazaar e Sunday Times. Porém, foi ao separar-se de Allan em 1958, que Diane largou a fotografia comercial e passou a fotografar o que realmente lhe encantava. As fotos, sempre em preto e branco, misturavam aberrações, anormalidade, travestis, mascarados e "simples humanos" que passeavam pelas ruas de Nova York, segundo Diane, nasceram banhados pelo trauma e com isso passaram no teste da vida, e apesar de diferentes, todos demonstravam sua essência no olhar. Nunca soubemos se os modelos posavam para as fotos ou se eram pegos de surpresa, o que percebemos é a certeza de que são exatamente aquilo que demonstram ser.
A Rolleiflex era uma câmera com duas lentes, sendo a superior para refletir a imagem visada num vidro fosco (com o objetivo de enquadramento) e a inferior para captação da imagem. O visor ficava à altura da cintura, e isso proporcionava ao fotógrafo uma relação mais próxima com o fotografado.
Em suas fotografias vê-se todo tipo de tragédia humana que nos chocam enquanto seduzem o mórbido que habita em cada ser humano. São desta época os perturbadores retratos com máscaras grotescas. Repito que Diane tinha curiosidade pelo incomum, pelo feio, pelo estranho. E completo dizendo que todas as coisas que eu não queria ver, Diane me fez ter curiosidade em ver. Ela dizia que um retrato era "um segredo sobre um segredo, quanto mais ela te fala, menos você sabe".


















Em 2006, dirigido por Steven Shainberg, surge FUR - AN IMAGINARY PORTRAIT OF DIANE ARBUS, para nós brazucas, A PELE. Cuja nota de abertura fala por si só: Este filme fala de Diane Arbus, mas não é uma biografia histórica. Arbus viveu de 1923 a 1971, e é considerada por muito, uma das maiores artistas do século XX. Certamente, seus retratos modificaram a fotografia americana para sempre. O que estão prestes a ver, é um tributo a Diane: um filme com personagens e situações que estão além da realidade para expressar talvez o que tenha sido a maior experiência interior de Arbus em seu extraordinário caminho.





Em 1971, Diane suicidou-se tomando ácido barbitúrico após cortar os pulsos.








"Para mim o sujeito de uma fotografia é sempre mais importante que a fotografia. E mais complicado também..." Diane Arbus

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Viajante por opção (dos outros) Parte I


Sair de casa não é fácil. Acertar o caminho para voltar para casa também não é fácil. Diante meus "passeios não programados" desde que cheguei em São Paulo, não é, de fato, uma surpresa eu falar que me perdi. É um pouco ridículo eu falar agora - nove meses depois - que estou vermelha por ter passado a noite chorando porque me perdi. É que hoje foi diferente... Encontrei vários tipos de pessoas. Pessoas com vários tipos de ideias. Ideias com vários tipos de interpretações.
Acordei cedo. Estava com a cabeça doendo muito. Fiz alguns resumos e arrumei a mochila que iria levar ao Shopping Santa Cruz quando fosse encontrar o Antonio às 13:30h para juntos fazer o trabalho de OREMECOM. Ainda não me acostumei com a ideia de ter mudado de casa, mudado de bairro. Não me acostumei ainda com os horários dos ônibus e com o ponto em que tenho que descer. Fui até a Lapa e lá pedi informação sobre que ônibus me levaria até a Barra Funda. O fiscal da SPTRANS me levou até a plataforma 21, e me falou para esperar o ônibus Terminal Barra Funda. Ele demorou 45 minutos, e enquanto eu o esperava comi um croissant, uma fogazza e uma tapioca de brigadeiro. Quando pude enfim sair da Lapa, percebi que o ônibus fazia um caminho estranho. Era demorado demais e na minha rádio preferida estava tocando um especial Zezé de Camaro e Luciano. Chegamos na Vila Zatt, e lá meu ôninus estacionou. Por trás do meu show de sertanejo, pude ouvir uma mocinha resmungar:
- Não passa no Terminal Barra Funda?
Rapidamente arranquei o fone do ouvido e levantei da cadeira gritando:
- Como assim não passa no Terminal Barra Funda???
- É... Não passa mesmo. - Disse o cobrador
Revoltadas, eu e a mocinha descemos do ônibus e ligamos enfurecidas para nossas mães. Ela contava de um jeito engraçado e eu, repetia tudo do mesmo jeito para a minha mãe na intenção de fazê-la rir (e não se preocupar). Após fazer o boletim de ocorrência maternal, decidimos entrar no ônibus novamente. Afinal, o ônibus se chamava Terminal Barra Funda e em algum momento iria passar na Barra Funda, certo? Errado! Acabamos voltando para a estaca zero - a Lapa.
Decidi que iria fazer meu trajeto usando a CPTM, e no trem fui até a Estação Barra Funda. Dali para frente minha viagem foi tranquila, e consegui chegar no Shopping Santa Cruz as 16:00h em ponto. O restinho do dia foi bem produtivo, conseguimos finalizar o trabalho de OREMECOM e ainda ouvimos Caetano Veloso. Fomos juntos até a Barra Funda e lá pegamos o mesmo trem, no sentido Itapevi. Desci na estação seguinte, a Lapa, e quando cheguei no ponto do meu ônibus vi que o relógio que marca o horário do próximo ônibus indicava 21:40h - o que NÃO seria nenhum problema se o horário atual NÃO fosse 19:50h. Decidi pegar qualquer Terminal Pirituba e descer lá. Poderia ir caminhando calmamente até o prédio. Acontece que peguei o ônibus errado e fui parar em Osasco.

(Continua...)

sábado, 17 de abril de 2010

nada

Nunca entendi por que me perguntavam "vai pegar o trem?" quando eu estava apressada. Agora eu entendo muito bem o que é correr, literalmente, para "pegar o trem". Enfim, hoje fui entusiasmada para a palestra sobre Assessoria de imprensa. Mas não rolou nada. Prometi planejar uma dieta hoje. Mas não rolou nada. Hoje alguém que eu senti falta foi até a minha faculdade. Nos vimos, nos abraçamos e ele me deu um beijo na bochecha. Mas não rolou nada.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Hey Jude, não fique assim...


Foto: Camila Melim

A palestra começou com um publicitário (que calado parecia ser feito de cera) falando sobre flexografia. Enquanto aprendíamos a base do que seria o processo de impressão gráfica (achando que havíamos entrado pela porta errada), sacos de ração canina iam passando mão a mão na intenção de diferenciarmos certos tipos de impressão, e até o fechamento deste post não chegaram até mim. Ouvimos palavras difíceis como fotopolímero e relevográfica enquanto a Camila fotografava tudo do alto do camarote (literalmente). Após alguns minutos de cochilos, o nosso palestrante se despediu e ao palco subiu um rapaz chamado Carlos. Começou falando sobre redes sociais e nos mostrou um ótimo video sobre as mudanças ocorridas na vida das pessoas devido o demasiado crescimento da "vida compartilhada". Algumas reclamações e desistências ocorreram durante o desenrolar do vídeo (que era legendado e as letrinhas se movimentavam na velocidade da luz), mas foi com os vídeos que Carlos ganhou a atenção dos alunos entediados! Afinal, quem não cantou pelo menos o "na na na" de Hey Jude?! Quem não deu uma boa gargalhada com o comercial da Kaiser? Quem não pensou "Quando crescer serei que nem o cara que criou o comercial dos notebooks STI. Ele é demais!". A palestra tornou-se facilmente interessante e agradável após a conversa com o Carlos, afinal, quando perguntava "quem aí tem conta no facebook?" ele falava nossa língua. Enfim, como diria o Antonio: Fomos surpreendidos novamente!

Abaixo o vídeo de Hey Jude, para cantarmos antes de dormir!

http://www.youtube.com/watch?v=orukqxeWmM0&feature=player_embedded

quarta-feira, 7 de abril de 2010

sem lenço, sem documento


Saí de casa (de novo). Meus olhos estão cobertos de olheiras e meus ombros cada vez mais caídos. Creio que é o cansaço, ou talvez a falta de alimentação constante. Não importa. Estou feliz, sou feliz. Dona das rédeas da minha vida. Achei que controlava apenas a entrada e saída de dinheiro (trabalho no setor financeiro de uma empresa de contabilidade), mas descobri que controlo minha mente, meus sentimentos, as batidas do meu coração. Sou capaz de chorar a hora que eu quiser. Agora estou chorando. Fim. Não estou mais. Agora quero gritar "eu sou capaz" e chutar a bunda da inveja. Esqueci minha toalha no banheiro, mas meu salário aumentou e eu vou comprar uma toalha preta para tirar os restos de qualquer partícula maldosa que possa se instalar entre minhas articulações. Quero crescer, construir, modificar. Quero provar que sou, que posso, que consigo, que vim e vou ficar. Mamãe e papai, I love you.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

TEMPO, TEMPO, TEMPO, apareça!


Aos 5 anos escrevi uma carta ao meu pai. Chorando, escrevi que nunca ia perdoá-lo por ter me dado o nome ALÉXIA e deixei bem claro que queria me chamar "Luz de Lampião". Graças a Deus ele não me deu bola e ainda me chamando Aléxia, terminei a escola bem cedo. Era a única menina de 15 anos cursando o terceiro ano - aquela que não podia sair por ser menor de idade, que não podia namorar sem antes passar a ficha completa do garoto para os pais, que não podia usar roupa curta nem dormir na casa da amiga. Por ter terminado tudo muito cedo, acho que amadureci muito cedo também. Acontece que uma parte de mim é adulta e a outra nega-se a crescer. Tenho 17 anos, saí de casa e estou no primeiro ano da faculdade. Mudei de casa, de cidade, de estado. Mudei as pessoas, os lugares, o sotaque. Enfim, forcei o nascimento de uma nova Eu. Minha mãe sempre me dizia: "Você vai chorar todo dia com saudade de mainha cheirando sua cabeça". Mas eu ria o tempo todo e dizia: "Você vai sentir minha falta mais do que eu a sua". O fato é que minha mãe continuou a vida dela e eu choro quase diariamente. Não porque está ruim, e sim porque eu ainda não consegui fazer tudo o que pretendia fazer. Por diversos fatores: dinheiro, espaço e tempo. Principalmente por falta de tempo. Há os que dizem: "Mas você é ambiciosa demais para uma garotinha..." e pode até ser verdade. Mas se tudo até hoje terminou tão cedo, creio que com a minha vida não vai ser diferente. Tenho medo da morte. Medo de morrer cedo demais. Sem a chance de ter tido uma grande idéia que faria as pessoas lembrarem de mim. Morrer sem ter ajudado ninguém. Sem ter recebido um elogio, sem ter feito alguém aprender a gostar de ler lendo as matérias que eu escrevia. Morrer falando apenas a lingua que obrigatoriamente aprendi. Morrer sem conhecer o Canadá. Morrer sem mostrar para os meus pais que tudo o que eu falei que um dia seria, eu fui. Morrer sem deixar filhos perfeitos. Morrer deixando filhos perfeitos. Morrer sem nunca ter sido amada de verdade. Morrer sem nunca ter deixado uma conta de luz atrasar. Enfim, morrer já engloba tudo isso. Por isso tenho pressa. Quero terminar a faculdade e me mudar para o Canadá. Aprender francês. Voltar para o Brasil e escolher onde quero trabalhar. Ser escolhida. Disputada. Mas enquanto isso tenho que aprender Libras e Inglês. E tenho que terminar a faculdade. A faculdade que eu insito em chamar de escola. Mas para isso, tenho que esperar quatro anos. E enquanto isso tenho que fazer alguns trabalhos, como a pauta de Introdução ao Jornalismo que não está pronta ainda. Como o Fichamento de Teoria e Metodologia que eu não sei como fazer. Como o trabalho de Organização e Estratégia sobre o livro A Arte da Guerra, que minha cachorrinha rasgou antes de ontem. Como o vídeo de Teoria da Comunicação que meu grupo não decidiu ainda o tema. Mas para isso, eu tenho que rever as matérias e entender os assuntos. Mas para que eu entenda de verdade, alguém tem que me explicar os assuntos, pois tenho muitas dúvidas ainda. Mas para isso alguém tem que ter tempo disponível para me ajudar. E não há mais tempo para nada nesse mundo. As horas nos enganaram todos esses anos, passaram rápido demais. Hoje é feriado e eu tenho o sábado e o domingo para estudar. Estou atarefada até o pescoço. Talvez no domingo eu tenha terminado tudo.

Mas hoje ainda é Sexta...

sábado, 27 de março de 2010

MAIS AMOR, POR FAVOR!


E as ruas da minha Pauliceia Desvairada estão cada vez mais sentimentais!



Desde que cheguei em São Paulo, percebi em vários lugares uma espécie de pichação educada que dizia "mais amor por favor", e que está em TODOS os lugares onde eu também estou. Há seis meses tento imaginar quem faz aquilo, e pela letra deduzo: Uma garotinha apaixonada? Uma lésbica que não consegue assumir a homossexualidade? Um grupo de colegial?
Hoje fui apresentada ao Ygor Marotta, o autor da frase e do coraçãozinho de olhos fechados. Ele que, com suas próprias palavras diz que não tem a intenção de agredir ninguém, apenas encontrou nos muros e paredes da cidade um suporte possível e eficaz para a mensagem. A letra cursiva é tática de atenção: Ela diferencia o seu trabalho das simples pichações espalhadas por aí.









E você, já gritou por mais amor alguma vez?

sábado, 27 de fevereiro de 2010

changes


Algumas pessoas me pediram para "postar no blog", mas, por sorte ou azar, nada catastrófico tem me acontecido ultimamente. Mesmo com o súbito fim de acontecimentos em minha vida, sinto que em mim, bastante coisa mudou. E é sobre minhas mudanças que quero escrever hoje. Depois que fui assaltada e quebraram meu roteador, fiquei sem celular e internet. E foi num sábado que, deitada no sofá, com preguiça de mudar o canal, voltei a assistir TV. Sim, venho acompanhando o BBB no fim de semana e estou satisfeita, obrigada. Recorro a filmes no Telecine, seriados na FOX e novelas na Globo. Agora, as janelas do MSN se agrupam em uma só, e eu consigo distribuir minha atenção entre os amigos. Meu celular tem tocado com frequência, e recebo mensagens de texto todos os dias. Vivo atenta, com sono e segundo minha prima, estou com chulé. Roí todas as unhas e mesmo assim, comprei 3 esmaltes vermelhos com nomes de pecados capitais. Uso meu horário de almoço no trabalho para ler livros e passei a gostar de trânsito: assim tenho mais tempo para dormir. Em um mês, só passei do ponto duas vezes - o que significa que melhorei bastante. Agora tenho uma assinatura de gente grande e uso sempre quando um acordo está se firmando entre duas partes. Sempre como testemunha. Nunca como parte. Agora uso uma bolsa pequena por não suportar o fato das pessoas dos ônibus nunca se oferecerem para segurar meus objetos enquanto elas estão sentadas. Estou com dor nas costas e preciso sempre que alguém estale meus dedos. Vivo uma vida dupla, previsível e imprevisível, tão simples e tão confusa, tão trágica e tão hilária.

E o melhor de tudo: Hoje ainda é sábado.

domingo, 31 de janeiro de 2010

"você não merece tudo o que eu ouso sentir"


Ele ria de mim quando eu, aflita, acreditava que ele estava pelado na webcam. Então ele sorria e me falava "você não desiste mesmo, né?", e mexia no cabelo que balançava quando estava molhado. A sobrancelha esquerda ficava mais alta que a direita quando ele, vingativo, tinha vontade de falar "é assim, né, filha da mãe?!", e a expressão dele mudava quando ele queria alguma coisa, me deixando submissa a seus pedidos. A atenção que ele dava a cada frase que escrevia no msn para outras pessoas, enquanto eu chamava sua atenção, escrevendo em letras maiúsculas "FALA COMIGO!". Por fim, o modo como franzia a testa quando se confundia com as minhas palavras era incrível. Seus olhinhos se transformavam em vírgula e o sorriso que eu tanto gosto parava de existir. Esse era o André que eu conhecia e adorava. O mesmo que mostrava a barriga sem pêlos pela webcam e roubava placas de trânsito em noites badaladas. O André que eu conhecia era frágil, capaz de quebrar com um abraço. E assim sendo, o mantenho em uma tela de vidro, para que nunca, nem por descuido, eu possa machucá-lo. Prefiro, até hoje, guardar essas imagens e ter essas lembranças: do André que sorri, que mexe no cabelo, que não entende as coisas que eu escrevo. Ouço apenas a sua voz de menino-que-acordou-agora, que me dá boa noite quando a tarde ainda é boa.


A ti, André, que me surpreende a cada dia que passa, que me prende a cada dia, que me perdoa um pouquinho por dia todos os dias.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Assalto


Uma agenda telefônica gigantesca, milhares de mensagens de texto, fotos de momentos agradáveis, alguns cds do Los Hermanos e meus horários para acordar, almoçar e ir dormir: Esse era o meu perfeito celular, apesar da cor rosa choque intenso, era o mais lindo do mundo. Demorei dias para decidir trocar o meu aparelho antigo e precisei de alguns minutos para dizer "é esse aqui que eu quero". Parcelei em 4 vezes sem juros e recebi meu salário pela manhã. Ou seja, última parcela prestes a ser quitada.

Saindo da empresa, fui abordada por dois homens em uma moto que parou em minha frente. Quando um deles desceu e veio caminhando em minha direção, guardei o celular no bolso de trás da calça e alternei passos calmos e rápidos. Senti duas mãos em meus braços, mãos frias e trêmulas. Era um assalto. Fui assaltada pela primeira vez na vida, e era dia. Ainda tinha sol, pessoas na rua do meu trabalho...

O homem, cujo rosto não consigo lembrar, olhava inquietamente para os lados enquanto tentava me explicar o que estava acontecendo.

"Passa"
"Moço, meu braço, por favor, moço, o braço..."
"Assalto, passa"

Numa tentativa desesperada de salvar meus documentos e a última prestação do celular, joguei a bolsa para dentro de uma casa na nossa frente, e, desatento a mim, e com a atenção voltada ao nosso redor, o ilegal tirou os olhos de mim por dois segundos e tentei correr, mas não adiantou. Fui puxada pelo cabelo com muita força, e levaram meu celular perfeito que estava no bolso da calça. Meu celular que ainda não foi pago. Meu celular que guardava minhas músicas, que não me deixava passar do ponto de ônibus certo. Meu celular que fazia ligações por 25 centavos o minuto. Meu celular que comprei há 4 meses. Tudo o que foi embora, tinha tanto valor para mim...

Fiquei incrédula, sem conseguir gritar, sem ter tempo para chorar, sem xingar ninguém. Toquei a campainha e pedi "Por favor, pega minha bolsa que está no seu jardim?".
Só queria conversar com alguém para tentar aliviar a tristeza.

"Desculpa quebrar alguns galhos da sua plantinha, eu fui assaltada, não tinha para onde correr..."

Ganhei dois copos de água e alguns minutos de conversa, com direito a exemplo de filho, filha, sobrinho e cunhado para servir de consolo.
Andei até o ponto de ônibus pensando em milhões de coisas que poderia ter dito... ter feito. Cada moto que passava me puxava um arrepio. Fiquei com medo de voltar sozinha para casa. Com medo de não encontrar uma parede baixa da próxima vez. De, quem sabe, não ter nada nos bolsos e ter que pagar com a vida.

Espero que curtam o último cd do Los Hermanos.